sábado, 27 de setembro de 2008

De olhos fechados


Se fechar os olhos sem força, consigo ver-me ainda entrar por aquela porta e mergulhar no burburinho da tua rotina. Ainda hoje, quando inspiro fundo, sinto o cheiro do café que derramei na tua camisa; Sinto com a tua pele a queimadura que te ofereci envolta num grande laço de fumo. Não me lembro que livro lia nesse dia. Foste o único que me fez esquecer as palavras que não se dizem nunca, porque são ecos na mente dos que vivem dentro de si mesmos. Na mente dos que vivem como eu: ora longe, ora perto... Ora em parte nenhuma dos dias que não correm porque acorrentados ao tempo que não passa. Ao tempo que se arrasta em círculos no ponto de partida. Na mente dos que vivem as Zero Horas para sempre da mesma maneira.

Quando me afundo no sofá lembro-me do teu traçar de perna. De como eras despreocupadamente especial. De como não tinhas noção que quando me olhavas fazia-lo sempre de baixo. De como aquele beijo fez de mim gigante entre as nuvens. De como salvavas pessoas de si mesmas, com olhares rápidos e ternos, na avenida que intermediava a tua casa e o fim do mundo.

Se fechar os olhos sem força, vejo-te, de novo, a tirar a canção do bolso e pousá-la em cima da cama. De como mesmo quando já não estavas, ela se cantou sozinha para mim. Lembro-me sempre de ti assim: música no vazio, Luz em noites cerradas.

Hoje sinto o arder de quando me sorriste e disseste que desperdiçar café num estranho era uma arte só minha. Ainda me queimas com o simples facto de um dia termos existido ao mesmo tempo, no mesmo espaço, quebrando a Física. E agora, quando fecho os meus olhos sem força, com o mesmo amor de ontem, adormeço. Um sono intermitente, pequenino, ao som da música que me deixaste:

És o dedilhar de uma guitarra num final de noite que trago, em chamas, junto ao peito.






terça-feira, 23 de setembro de 2008

I'm Supertramp... and you're super apple!









There is a pleasure in the pathless woods;
There is a rapture on the lonely shore;
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar:

I love not man the less, but Nature more...



- Lord Byron




Para evasão momentânea, clickar aqui.



domingo, 14 de setembro de 2008

World Art Friends

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Eu já concorri com um par de trabalhos... para quem esteja interessado, passo a publicidade gratuita aos Amigos da Arte.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Though your heart is aching...



"...Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear, may be ever so near,
That's the time, you must keep on trying
Smile, what's the use of crying?
You'll find that life is still worthwhile,
If you'll just....
Smile ."




(Pode parecer piroso, mas é uma verdade a ser lembrada... constantemente.)

Para ouvir a música, façam a pergunta certa. E clickem.


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

"Para onde ides vós, América, no vosso automóvel a cintilar pela noite fora?"


(Foto tirada do carro, quando voltava do Alentejo... gostei das cores.)



"Que sentimento é esse que temos quando vamos de carro e nos afastamos das pessoas e elas vão diminuindo de tamanho na planície até vermos as suas manchas dispersar? É o mundo demasiado grande a pesar-nos, é o adeus. Contudo, curvamo-nos avançando para a próxima louca aventura debaixo do céu."


(Sal em Pela Estrada Fora, por Jack Kerouac)

domingo, 31 de agosto de 2008

Faço minhas as palavras do Gigante


"Sou um homem ridículo. Agora já quase me tomam por louco. O que significaria ter ganho em consideração, se não continuasse a ser um homem ridículo. Mas eu já não me aborreço por causa disso, agora já não guardo rancor a ninguém e gosto de toda a gente, ainda que se riam de mim... sim senhor; agora, não sei porquê, sinto por todos os meus semelhantes uma ternura especial. Teria muito gosto em acompanhá-los no vosso riso... não, precisamente, nesse riso à minha custa, mas pelo carinho que me inspiram, se não me fizesse tanta pena ver-vos. É pena que não saibam a verdade. Oh, meu Deus!, como é doloroso ser um só a saber a verdade! Mas isto não o compreendem eles. Não, nunca o compreenderiam."


(Dostoievski, em O sonho de um homem ridículo)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Where I end and you begin



Estendo-te a mão para que subas comigo. Até não haver chão. Até caminharmos sobre o ar. Quero que me sigas para que te sentes a meu lado no topo do mundo, onde o som não se propaga e a chamas se apagam com a doce ausência do existir. Quero que apertes os meus dedos quando estivermos quase no cume. Quero que sintas o meu arrepio subir-te pela espinha, abraçar-te a nuca e beijar-te os olhos com frio. Que vejas o nascer do dia no fim do dia. Que vejas como o terminar é o começar de outro nada que mastigo com a tua boca. Quero que adormeças o pulso por instantes e sintas o momento latejar na ponta da tua língua…senti-la gotejar sonhos e aspirações. Quero que os ponhas todos de lado e que sustenhas a respiração; que deixes que os teus olhos se encham de almas que não a tua. Quero que sejas um mundo no teu corpo único. Que sejas eu na palma da tua mão, percorrendo os teus dedos, apertando as tuas unhas… e finalmente voltando a mim com um choque.

Somos explosões mudas.
Electricidade vazia.

Quero que largues a minha mão quando o silvo soar. Aquele que não se ouve, mas se sente formigar debaixo dos nossos pés e os morde com ternuras. Quero que sejamos tu e eu quando estivermos em brasas mortas. Que te lembres que mesmo quando somos um, somos sempre dois: Tu e eu, sem toques e sem palavras.
Quero que olhes sempre em frente, quando chegarmos. Que grites para dentro e não interrompas as minhas lágrimas. Porque eu vou chorar… lágrimas quentes e gordas de medos e alegrias, amores e desgostos, paixões e desavenças. Vou chorar o ódio que tenho por tudo, quando o meu amor por tudo for demasiado para o aguentar dentro do meu peito. Nesse momento, não tenhas medo: peço-te que olhes em frente, e que te lembres que odeio a ordem das coisas porque não sei como amá-la mais. Que a odeio porque a amo, e mesmo quando a mato, faço-o porque não sei como odiá-la mais.

Um pé à frente do outro, caminhamos sobre o nada. Somos ar. Somos a transparência das emoções quando o sentir é mera banalidade de mendigos. Estamos no topo, somos o topo, somos o fim do mundo que deixamos para trás. O fim do início e o início de outro início que não tem fim.

Somos a continuação de todas as coisas.
O amanhã que tarda.

Enlacemos as nossas mãos e sejamos separados, ainda assim. Sejamos sempre a ausência de dois corpos. Sejamos vento que chora e espanto que cala. O frio que corta e a brisa que embala. A luz que queima e o som que apunhala…
Sejamos sempre, e para sempre, a voz que não se ouve, mas, que para sempre, intervala:

O meu ser e o teu ser.