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sábado, 20 de dezembro de 2008

Dessine-moi un mouton!



"Para mim, esta é a mais bela e mais triste paisagem do mundo. [...] Foi aqui que o principezinho fez a sua aparição na Terra e, depois, desapareceu. Fixem bem esta paisagem para poderem reconhecer se um dia fizerem uma viagem a África e forem ao deserto. Se passarem por este sítio, suplico-vos: não tenham pressa, fiquem um bocadinho à espera mesmo por baixo da estrela! Se vier um menino ter convosco, um menino que se está sempre a rir, com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é. E então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou..."


-O Principezinho-
Antoine de Saint-Exupéry




sábado, 29 de novembro de 2008

A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida



"Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas."


-Livro do desassossego-
Fernando Pessoa




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E agora também eu caminho sobre a monotonia, aspirando a que todos os dias tenham para mim qualquer coisa de apocalipse modesto...
À espera de um privilégio de maravilha, que eu sei que virá.

Mesmo que não seja hoje.
Ou amanhã.
Ou convosco.

Mas que virá.




sexta-feira, 14 de novembro de 2008



"(...) E naquele lugar adormecemos, por fim, exaustos, como se adormecêssemos no fim do mundo.
Hoje, nada mais se move, mesmo no fundo da memória. Caminhamos sob o mapa das constelações, tão antigo quanto os homens e os animais da terra - tão antigo quanto a morte e a vida. Ao longe, vemos o clarão de néon húmido da cidade. Pernoitamos na orla de um tempo sem relógios, e de manhã choramos ao encontrarmos nossos corpos abraçados na intensa nudez das açucenas.
Enquanto dormias a meu lado mantive-me acordado, e sonhava contigo. Dizia para mim mesmo aquilo que não sabia dizer-te quando acordasses:

Vem e cobre a minha sombra cansada, antes que o vento a disperse ao amanhecer. Pega-me nas mãos, apaga a dor da luz nas pálpebras e leva-me. Leva-me se puderes, de regresso à noite das cidades, ou estaremos condenados a arder no acre suco dos eufórbios..."



-Lunário-
Al Berto



terça-feira, 11 de novembro de 2008

E tu... não me hei-de esquecer da tua voz.





"Esta mesma rapariga, entenda as mulheres quem puder, que é a mais bonita de todas as que aqui se encontram, a de corpo mais bem feito, a mais atraente, a que todos passaram a desejar quando correu a voz do que valia, foi afinal, uma noite destas, meter-se por sua própria vontade na cama do velho da venda preta, que a recebeu como chuva de Verão e cumpriu o melhor que podia, bastante bem para a idade, ficando por esta via demonstrado, mais uma vez, que as aparências são enganadoras, e que não é pelo aspecto da cara e pela presteza do corpo que se conhece a força do coração."


-Ensaio sobre a cegueira-
Saramago







segunda-feira, 8 de setembro de 2008

"Para onde ides vós, América, no vosso automóvel a cintilar pela noite fora?"


(Foto tirada do carro, quando voltava do Alentejo... gostei das cores.)



"Que sentimento é esse que temos quando vamos de carro e nos afastamos das pessoas e elas vão diminuindo de tamanho na planície até vermos as suas manchas dispersar? É o mundo demasiado grande a pesar-nos, é o adeus. Contudo, curvamo-nos avançando para a próxima louca aventura debaixo do céu."


(Sal em Pela Estrada Fora, por Jack Kerouac)

domingo, 31 de agosto de 2008

Faço minhas as palavras do Gigante


"Sou um homem ridículo. Agora já quase me tomam por louco. O que significaria ter ganho em consideração, se não continuasse a ser um homem ridículo. Mas eu já não me aborreço por causa disso, agora já não guardo rancor a ninguém e gosto de toda a gente, ainda que se riam de mim... sim senhor; agora, não sei porquê, sinto por todos os meus semelhantes uma ternura especial. Teria muito gosto em acompanhá-los no vosso riso... não, precisamente, nesse riso à minha custa, mas pelo carinho que me inspiram, se não me fizesse tanta pena ver-vos. É pena que não saibam a verdade. Oh, meu Deus!, como é doloroso ser um só a saber a verdade! Mas isto não o compreendem eles. Não, nunca o compreenderiam."


(Dostoievski, em O sonho de um homem ridículo)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

...mas ardem, ardem, ardem!







"... porque as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir, semelhantes a aranhas, através das estrelas e, no meio, vê-se o clarão azul a estourar e toda a gente exclama: «Aaaah!»..."



(de "Pela estrada fora", Jack Kerouac)




sábado, 8 de dezembro de 2007

Pronto Ernest, dou-te uma última oportunidade de te redimires...


Só para não dizerem que desprezo um nobel da literatura por pura embirração. Mas digo-te já, Nestinho querido, é a última vez! Tiveste o condão de me fazer desistir de um livro a meio, e olha que isso é inédito. Espero bem que tenhas dado folga à guerra, parado com os romances lamechas e decidido escrever diálogos com alguma espécie de nexo remoto. Vá... pelo menos finge que as personagens estão a conversar uma com a outra não?


- Bom - disse ele. - Eu amo-te e a minha profissão pode ir-se embora gentilmente.
- Deixa-me agarrar a tua mão - disse ela. - Está bem. Podes pô-la sobre a mesa.
- OBrigado - disse o Coronel.
- Não digas isso, por favor - disse ela. - Queria senti-la porque durante a semana passada, todas as noites, ou acho que todas as noites, sonhei com isso, e foi um sonho muito confuso e sonhei que era a mão de Deus.
- Isso é mau. Não devias fazer isso.
- Bem sei, mas o sonho foi assim.
- Não estás a gozar, pois não?
- Não percebo o que queres dizer e, por favor nao te rias de mim quanto te digo uma verdade. Sonhei mesmo o que disse.
- O que fazia a mão?
- Nada. Ou talvez nada disto seja verdadeiro. Mas era quase sempre uma mão.
- Era igual a esta? - perguntou o Coronel, olhando com desgosto a mão deformada e recordando-se das duas ocasioes que a tinham feito assim.
- Não era igual: era essa. Posso tocar-lhe com os dedos se por acaso não dói?
- Não dói. Onde dói é na cabeça, nas pernas e nos pés. (...)
- Não gosto de olhar para ela. Não achas que a podiamos esquecer?
(...)
- Agora que já lhe toquei cuidadosamente podemos falar de coisas divertidas, se quiseres. Que há para aí de engraçado que se possa falar?
- Vamos olhar para as pessoas e discutir sobre elas.
- Isso é adorável.
(de "Na outra margem, entre as árvores")



Confessem lá que não vos apetece voltar atrás no tempo e darem-lhe com o nobel na testa?

sábado, 1 de dezembro de 2007

"There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt in your philosophy"




- Nós preferimos fazer as coisas com todo o conforto.
- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade, quero o pecado.
- Em suma (...) você reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja assim! - respondeu o Selvagem em tom de desafio. - Reclamo o direito de ser infeliz.
- Sem falar no direito de envelhecer, de ficar feio e impotente, no direito de ter a sífilis e o cancro, no direito de não ter de comer, no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá acontecer amanhã, no direito de apanhar a febre tifóide, no direito de ser torturado por indizíveis dores de todas as espécies.

Estabeleceu-se um longo silêncio.

- Reclamo-os a todos - disse, por fim, o Selvagem.

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Mais um livro que vai para a gaveta dos livros que tornaram as viagens de comboio diárias para Lisboa mais fáceis. In your face, Hemingway.