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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Morre-se em Lisboa


Nada: Zero de aflição. De susto ou sobressalto. Apenas correntes de ar gelado que nos beijam a nuca com arrepios de amor esquecido.

Morre-se em Lisboa e não se enterram os corpos. Passeia-se nas calçadas de olhos fixos no que vem depois, e ninguém se pergunta de quem foram todos os corpos nauseabundos que apodrecem às portas de nossas casas. «Fecha o casaco!», atira a mãe aflita, que as almas penadas gelam o metro húmido pelo Inverno que não acaba. Chove desdém. Troveja indiferença. E este silêncio frio e seco que nos corta os lábios...
.
Quem são estes mortos, ninguém procura;
De quem são estes mortos, ninguém arranha.
Não se velam os de ontem e matam-se os de hoje, relevam-se os de amanhã. Não importa. Lancem-nos no fogo, que a Primavera tarda e o calor é apenas lembrança de uma infância que se guarda, com saudade, atrás das costas.

Morre-se baixinho nesta cidade. Morre-se em bancos de jardim, de jornal debaixo do braço e filtro de cigarro pendurado na boca. Em praças abertas, aos pés de estranhos. Morre-se com calma e de sorriso rasgado:
«Felizes para sempre», pensa o menino de olhos tristes.
.
Em todo o lado se apagam as luzes e ninguém parece ter medo do escuro, ninguém reclama luzes de presença. Avança-se com passos firmes para o abismo e não se hesita: morre-se no ar, em plena queda, de mãos apertadas sobre o peito e lábios descolados, como quem espera um beijo curto, no canto da boca, oferecido pelo estranho que nos serve o café todas as manhãs. Morre-se sem saber que se sonha quando se está a morrer. Ou que a morte é um sonho, ou que apenas se sonhou estar vivo. Porque as luzes se apagam em toda a parte, e então só fica o sono.

Não quis que fosse verdade, quis morrer pr'a o provar errado.
«Velem o meu corpo», pedi-lhes com doçura, «Envolvam-me nos vossos braços e dêem-me um nome. Façam-me vossa junto dos vossos, tombem flores sobre a minha carne e molhem a terra com que cobrirão a minha boca com as vossas lágrimas.»
Cruzei os tornozelos, amoleci os joelhos e deixei-me cair no chão sem um único som, abandonada no asfalto com um sorriso no rosto. Ao longe apagou-se mais uma luz.
.
E então veio o Nada: zero de aflição. De susto ou sobressalto. Apenas um mendigo de dedo em riste:
«Eu não sou ninguém e tu não és ninguém.»
.

Morri em Lisboa e fui de ninguém.
«Feliz para sempre», pensou o menino.

E contornou o meu corpo.
E não olhou para trás.


* * * *
* *
*

Não sei se é um regresso...mas acho que tenho algumas coisas para dizer...
E tenho Saudades.






sábado, 10 de janeiro de 2009

Carta queimada


Escrevo-te uma última carta apenas para te dizer que, finalmente, consegui. Passados tantos anos, consegui dançar no passado e caminhar de volta ao dia de hoje sem lágrimas, sem soluços amarrados ao fim súbito que engoli sem mastigar. E que nunca digeri. Que me trouxe de arrastão à náusea que foi o meu existir de ontem.
Escrevo-te para que saibas que quando me sento nos degraus, na entrada da tua antiga casa, ainda sinto tremores, ainda me foge o sangue das mãos. Dobro os joelhos e cozo-os ao peito; fecho os olhos com força e colo os lábios à cicatriz que me ofereceste com tanto amor.

«Naquela tarde, em que corria atrás de ti, a favor do vento, e fugia do louco que nos gritava delírios do fundo da rua, caí ao comprido no alcatrão.
Uma queda morna e vermelha, que ardia e contia um choro de menina.»

Eis o que és, para mim, agora: memória aveludada de feridas que fecharam; eis o que sou, para ti, agora: prova do teu existir apressado.

Se tivesse contado, desde o início dos tempos do Ser sem ti, as vezes que tentei sentar-me na entrada da tua vida que passou, ter-lhes-ia perdido a conta. Mas posso descrever-te, com todas as cores, com todos os cheiros, cada um dos fins de tarde que chorei sozinha, do outro lado da estrada, na esperança de te ver correr para fora, saltar os três degraus de uma só vez com as tuas pernas curtas, e gritar-me, vitoriosa, como sofres de uma doença rara que te impede de morrer até ao fim do meu sempre. Que não podes ser linha do horizonte antes que eu possa correr o outro mundo, sem pés, como os fantasmas das noites de Verão que nos beijavam as costas com suores frios de criança.

Podia dizer-te como o vento do fim dos dias tinha sempre um sabor diferente quando esperava por ti, naquele passeio. Mas não te escrevo para nada disto. Não te vou pintar com poesias como fui contigo sem ti, durante todo este tempo em que na verdade não fui. Não fui de todo.
Escrevo-te apenas para te dizer que os anos passaram devagar, quase parados, mas que as minhas pernas cresceram e nas minhas mãos já não existem dedos pequeninos, por onde a prudência teimava escorregar, em tempos que já não vingam. Os meus soluços espaçaram e desprendi o choro.

Sentada, enrolada na saudade, vejo-te sorrir-me do outro lado da estrada onde te esperei, um dia, para sempre. Um sorriso de esponja, que impede o eco dos lamentos que te atiro na distância de se partirem em mil pedaços de vazio. Consigo gostar de ti, sangrar por ti, odiar-te e perdoar-te, tudo num intervalo de suspiro, com uma estrada entre nós. Quando te vejo esvanecer na transparência do teu não estar aqui, grito-te que padeço de uma doença rara que me impede de morrer contigo, mas que me força a viver por ti.
Sorrio no teu último voltar de costas, porque agora já não te amo, nem te odeio, nem tenho o que te perdoar. Sorrio sozinha, sorrio por mim,
orgulhosa por ter aprendido, apenas e simplesmente, a gostar de ti assim:


sem lágrimas,
sem perguntas
e no adeus.

Risco um fósforo e queimo a carta.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008


É com dentes cerrados e olhos contentes que mordo, baixinho, a vossa brandura:
A classe com que se movem nos recantos escuros dos corredores que intrincam o meu peito, sibilando beijos à minha raiva, batendo o pé ao compasso da minha indiferença...


E é tão mais fácil ser como vós, não é?

Não é?



Não é.

E soubessem vocês que eu hoje não me movo, mas levito sobre o chão;
Que não me perco em noites escuras, porque corro em dias eternos;
Que não grito ternuras à distância, porque a ataco no silêncio que a sufoca;
E que não bato o pé, mas danço, danço, danço sem vos tocar nos ombros,
sem vos pisar os sonhos,
sem vos roubar esperanças.

E tudo porque eu sei que, ao meu ritmo, nenhum de vós se move.






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"Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali..."



-Cântigo Negro-
José Régio

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A sustentável leveza do Não Ser


... E o silêncio bruto com que te firo esta manhã, são gritos lancinantes que atiro ao vento, na esperança que no arrepio do fim de tarde, não sejas tontura febril no inicio de madrugada.

No querer não te ver nos meus dedos. Na minha nuca. Na minha pele.
Mas principalmente nas minhas palavras.
Na minha boca.

E se ainda assim viveres no meu corpo, abandono-me ao tempo e à sorte numa rua perdida desta cidade, rugindo para ninguém um delírio suplicante:

«Dispam-me de mim e deixem-me ser alma;
Calem-me o amor e deixem-me ser nada...»




segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Tudo isto será, um dia, gasto...






É no momento em que passo as mãos pelo rosto, pela manhã, quando me fito no espelho, que sei que vivo numa casa de portas e janelas seladas; de tectos baixos e chãos de areia preta.

É no choque com a água fria que sinto os anos de ausência de alguém que me veja com olhos de ver, com olhos que não me atravessem, mas que se prendam na doce lentidão da descontinuidade do meu pestanejar.

É no momento em que corro em círculos no meu quarto e levanto pó com os meus pés que sei que ainda sou prisioneira numa caixa de fósforos que já não podem arder.

“Húmidos das minhas lágrimas.”


E então juro que quero sorrir.
Juro que quero sair.
E prometo que ainda sou a mesma quando a última hora do dia dá de si.

Mas eles não querem saber.
Agora tudo o que consigo sentir na boca é gosto dos corações dilacerados
pela fome da madrugada que parte sem olhar para trás e bate com a porta:

num estrondo.
Num fechar de um livro velho.
Num último gole de café queimado que me morde os lábios com amor de plástico.


É no voltar à cama, no cobrir o rosto com o cobertor, no pedir aos deuses que me roubem a vista, que sei que não é para sempre: não, este sono não é para sempre. Esta vontade de não ter vontade, não é para sempre. Este sempre para sempre não é para sempre, porque nunca nada o é eternamente. Nem eu, nem vocês, nem este momento, aqui e agora, que também já passou.
Tudo isto será, um dia, gasto…

Aconchego-me sobre a almofada e durmo um sono solto; sonho um sonho quente: nada é eterno e tudo isto será, um dia, chamas...


... porque eu hei-de parar de chorar
(enterrar este Eu que hoje me arrasa);

E quando aquele fósforo secar,
ainda que nunca me vá perdoar,
Pego fogo a tudo nesta casa.


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"You've built all these rooftops
And painted them all in blue
If all this set just burns up will you paint the ashes?"


-Haunted home-
David Fonseca



sábado, 29 de novembro de 2008

A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida



"Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas."


-Livro do desassossego-
Fernando Pessoa




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E agora também eu caminho sobre a monotonia, aspirando a que todos os dias tenham para mim qualquer coisa de apocalipse modesto...
À espera de um privilégio de maravilha, que eu sei que virá.

Mesmo que não seja hoje.
Ou amanhã.
Ou convosco.

Mas que virá.




sábado, 15 de novembro de 2008

Confessá-lo seria assim...




... como levantar a blusa, apontar no meu peito nú, e dizer:

O meu coração fica exactamente aqui.


E fazer figas para que as pessoas não andem armadas.
Mas eu recuso-me. Finco os dois pés neste chão e recuso-me.
E pago o meu preço.

E eles nunca saberão a verdade.





quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A procura


Finalmente fomos apenas tu, eu e o eco do silêncio, dentro de uma caixa de fósforos.

Não te via, mas soube que tinhas os olhos abertos, mergulhados nas trevas, na esperança de veres o meu rosto iluminar-se com o sorriso meigo que sempre te ofereci sem cobranças… Mas passado tanto tempo, já não te sorrio no escuro. Não te passo a mão pelo rosto nem te aconchego, nos meus sonhos, com os lábios.

Não te via, mas soube que as tuas mãos procuravam as minhas no vazio, devagar, mas sem cansaços. Perdoa-me, se puderes, por já não ter ternuras para te dar… Os meus abraços estão gastos e os meus olhos fechados; já não te procuro. Agora que sei onde estás, já não te procuro.

Quando, uma vez, acordei cansada de existires, perguntei-me o que faria se o dia chegasse. Se um dia decidisses que era tempo de retribuir a minha vida com um toque, perguntei-me o que faria… e soube que não o faria. Não tenho mais vida para te dar e a paz na minha morte é minha e não ta dou. E se me deixo cair no escuro, de olhos fechados e com um sorriso voltado do avesso, é porque agora sei ser feliz sem que olhes para mim ou me toques com esses dedos que senti apenas algumas vezes, de passagem, por tentarmos existir ao mesmo tempo, no mesmo espaço, chocando desejos.

Não te via, mas senti-te avançar para mim, puxar o meu corpo do chão e implorar-me por alguma alegria. Não te via, mas senti os teus dedos entrelaçarem-se nos meus, suplicando apertos, beliscando cuidados. Não te via, mas no meio da tua tristeza calada, senti-te chorar um beijo. Um beijo morno e demorado, dado com lágrimas e soluços culpados, por nunca me teres visto quando éramos tu e eu à luz do dia.
Ouvi música, vi o mar, corri num campo aberto. E no centro do meu mundo, a vibração do pulsar de uma réstia de vida.

E então, procurei-te.

As minhas mãos encheram-se de ternuras envoltas em laços e papel de embrulho; e os meus braços apertaram o ar, na ânsia de te acomodar junto ao meu peito. Mas os meus olhos permaneceram fechados, porque te vi. Quando não te olhava, finalmente vi-te. Quando não me tocavas, enfim fomos um.
E é agora, ainda no escuro, baixinho, que te peço:

Beija-me outra vez daí de onde estás. Beija-me sem lábios, sem palavras. Mas beija-me com força. Beija-me com certeza.

E tu permaneceste imóvel.
E limpaste as lágrimas.
E beijaste-me com força, com certeza, até a minha alma se sentir beijada.



sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Era uma casa muito engraçada, não tinha tecto não tinha nada...


Disseste-me um dia que, se me perdesse por esse mundo fora, podia deitar-me no meio do nada e sentir-me em casa. Porque o chão é todo um. Porque todos caminhamos sobre o mesmo mundo.
Que se me deixasse ficar deitada no vazio tempo suficiente, alguém acabaria por me encontrar.
Alguém me tocaria no ombro, com brandura, e me diria:

«Anda, vamos para casa.»

E eu levantar-me-ia.
E ia.



Mas é mentira.
Eu fi-lo... e é tudo mentira.




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"Home... I can't say where it is but I know I'm going home
That's where the hurt is."



-Walk on-
U2



terça-feira, 4 de novembro de 2008

Deixa morrer


Em certas manhãs de Abril, eu quero tudo.

Quando o céu desaba, entre os meus dedos, no meu bolso, e os rostos com que me cruzo me gritam que o fim do mundo é hoje ao fim da tarde, eu quero tudo o que eu quero, tudo o que tu queres e tudo o que eles desejam à distância de uma falha no meu pulso.

Bato a porta com a fúria de quem fui há anos e saúdo o exist
ir com a alegria de hoje, que é minha e só minha; reclamo-a para mim e escondo-a atrás das costas de mãos apertadas e faces ardentes, coração pequenino e suspiros intermitentes, para que não saibas que sou feliz nos dias de chuva.

Caminho sobre as poças escuras e amo a tempestade que me desgrenha os cabelos como te amei nos dias que pintámos de nuvens incandescentes. Sorrio ao estranho que me aborda no passeio e me estende publicidade que não leio nunca: também ele arde sob a chuva que não nos molha: a nós, os escolhidos.

Fomos os escolhidos para dançar entre os que caminham entre o nada e o quase-nada, tremendo sob o doce da água que os gela por dentro, secando as pedras da calçada com ternuras sopradas no restolhar da eternidade que nos abraça a cada passo que damos, decididos. Nessas manhãs sou uma só com o mendigo que me oferece a mão e me abençoa com um obrigado salgado. Sento-me com ele no cartão e mordo o mesmo naco de pão envolto em jornal, desfeito pela água que o lava e me aconchega o peito. E aqueço-o com beijos que lhe dou com os meus olhos e guardo o sorriso que me retribui com a boca, junto ao amor que ainda tenho por ti.

Gosto de ti assim: com os olhos, com obrigados temperados pela distância entre ti e o que quero nos manhãs cinzentas de Primavera. Quero-te assim, com intervalos nos dias em que o sol brilha e os braços me pendem ao longo do corpo, sem alegrias para esconder. E amo-te assim, quando aperto as estrelas entre o polegar e o indicador e imploro aos deuses que me concedam mais um dia de chuva sem te ver.

E quando esse dia chega, estendo-te a mão e beijo-te um pedido:
Deixa-me ser sozinha com o tumulto da tua ausência.
Apenas porque sim.
Apenas porque não pode ser de outra forma.

Apenas porque te peço:

Deixa o nosso amor morrer…





* * *



“Amar é bom se houver no fundo de um de nós alguma solidão.”


-Deixa morrer-
Ornatos Violeta









sábado, 18 de outubro de 2008




"... E ao que eu vejo
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi
... E eu fiquei com tanto para dar
... E agora não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva.

E pudesse eu pagar de outra forma..."




-Ouvi dizer-
Ornatos Violeta





* * *




Pela primeira vez tenho tantas coisas para dizer e faltam-me as palavras certas.
De todos os lados, muros de silêncio.
De todos os cantos, olhares de soslaio que trazem presa.

E tu?
Sim, e tu?
Consegues escrever em betão armado?




sábado, 27 de setembro de 2008

De olhos fechados


Se fechar os olhos sem força, consigo ver-me ainda entrar por aquela porta e mergulhar no burburinho da tua rotina. Ainda hoje, quando inspiro fundo, sinto o cheiro do café que derramei na tua camisa; Sinto com a tua pele a queimadura que te ofereci envolta num grande laço de fumo. Não me lembro que livro lia nesse dia. Foste o único que me fez esquecer as palavras que não se dizem nunca, porque são ecos na mente dos que vivem dentro de si mesmos. Na mente dos que vivem como eu: ora longe, ora perto... Ora em parte nenhuma dos dias que não correm porque acorrentados ao tempo que não passa. Ao tempo que se arrasta em círculos no ponto de partida. Na mente dos que vivem as Zero Horas para sempre da mesma maneira.

Quando me afundo no sofá lembro-me do teu traçar de perna. De como eras despreocupadamente especial. De como não tinhas noção que quando me olhavas fazia-lo sempre de baixo. De como aquele beijo fez de mim gigante entre as nuvens. De como salvavas pessoas de si mesmas, com olhares rápidos e ternos, na avenida que intermediava a tua casa e o fim do mundo.

Se fechar os olhos sem força, vejo-te, de novo, a tirar a canção do bolso e pousá-la em cima da cama. De como mesmo quando já não estavas, ela se cantou sozinha para mim. Lembro-me sempre de ti assim: música no vazio, Luz em noites cerradas.

Hoje sinto o arder de quando me sorriste e disseste que desperdiçar café num estranho era uma arte só minha. Ainda me queimas com o simples facto de um dia termos existido ao mesmo tempo, no mesmo espaço, quebrando a Física. E agora, quando fecho os meus olhos sem força, com o mesmo amor de ontem, adormeço. Um sono intermitente, pequenino, ao som da música que me deixaste:

És o dedilhar de uma guitarra num final de noite que trago, em chamas, junto ao peito.






sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Where I end and you begin



Estendo-te a mão para que subas comigo. Até não haver chão. Até caminharmos sobre o ar. Quero que me sigas para que te sentes a meu lado no topo do mundo, onde o som não se propaga e a chamas se apagam com a doce ausência do existir. Quero que apertes os meus dedos quando estivermos quase no cume. Quero que sintas o meu arrepio subir-te pela espinha, abraçar-te a nuca e beijar-te os olhos com frio. Que vejas o nascer do dia no fim do dia. Que vejas como o terminar é o começar de outro nada que mastigo com a tua boca. Quero que adormeças o pulso por instantes e sintas o momento latejar na ponta da tua língua…senti-la gotejar sonhos e aspirações. Quero que os ponhas todos de lado e que sustenhas a respiração; que deixes que os teus olhos se encham de almas que não a tua. Quero que sejas um mundo no teu corpo único. Que sejas eu na palma da tua mão, percorrendo os teus dedos, apertando as tuas unhas… e finalmente voltando a mim com um choque.

Somos explosões mudas.
Electricidade vazia.

Quero que largues a minha mão quando o silvo soar. Aquele que não se ouve, mas se sente formigar debaixo dos nossos pés e os morde com ternuras. Quero que sejamos tu e eu quando estivermos em brasas mortas. Que te lembres que mesmo quando somos um, somos sempre dois: Tu e eu, sem toques e sem palavras.
Quero que olhes sempre em frente, quando chegarmos. Que grites para dentro e não interrompas as minhas lágrimas. Porque eu vou chorar… lágrimas quentes e gordas de medos e alegrias, amores e desgostos, paixões e desavenças. Vou chorar o ódio que tenho por tudo, quando o meu amor por tudo for demasiado para o aguentar dentro do meu peito. Nesse momento, não tenhas medo: peço-te que olhes em frente, e que te lembres que odeio a ordem das coisas porque não sei como amá-la mais. Que a odeio porque a amo, e mesmo quando a mato, faço-o porque não sei como odiá-la mais.

Um pé à frente do outro, caminhamos sobre o nada. Somos ar. Somos a transparência das emoções quando o sentir é mera banalidade de mendigos. Estamos no topo, somos o topo, somos o fim do mundo que deixamos para trás. O fim do início e o início de outro início que não tem fim.

Somos a continuação de todas as coisas.
O amanhã que tarda.

Enlacemos as nossas mãos e sejamos separados, ainda assim. Sejamos sempre a ausência de dois corpos. Sejamos vento que chora e espanto que cala. O frio que corta e a brisa que embala. A luz que queima e o som que apunhala…
Sejamos sempre, e para sempre, a voz que não se ouve, mas, que para sempre, intervala:

O meu ser e o teu ser.





sexta-feira, 25 de julho de 2008

As palavras que nunca te disse




Agora que se passaram mil vidas entre o começo da minha e o despertar da tua (com o meu primeiro grito), posso dizer que ainda gosto de ti. Posso dizer que gosto de ti como gostava de ti quando não sabia o que era gostar.

Gosto de ti quando me obrigavas a usar aqueles laços amarelos no cabelo, que eu detestava,

Gosto de ti quando não me deixavas sair com medo que eu crescesse depressa demais,

Gosto de ti quando fazias a dobra do lençol sobre o meu rosto,

Gosto de ti quando deixavas a luz do candeeiro acesa até eu adormecer (lembras-te dele? O pé era uma menina com um grande chapéu e um cesto nos braços. Lembro-me de como tinha aquelas fitinhas rosa pendentes em que eu gostava de passar a mão e de como eram macias nos meus dedos pequeninos…),

Gosto de ti quando deixavas a porta do meu quarto entreaberta para eu ver a luz da cozinha acesa ao longe, e não me sentir sozinha no escuro,

Gosto de ti quando me dizias que era feio assobiar,

Gosto de ti quando me ralhavas porque eu brincava com aquelas bonecas caras que querias que ficassem para sempre na prateleira mais alta,

Gosto de ti quando me deixaste ir de férias sozinha pela primeira vez,

Gosto de ti quando não me deixavas pintar no quarto, com medo que riscasse o chão,

Gosto de ti me quando me deste aquela bofetada na rua por me apanhares a fumar no jardim,

Gosto de ti quando eu estava doente e me pedias para não chorar, para que não chorasses também (um pedido feito com uma voz embargada e olhos rasos de água),

Gosto de ti quando me disseste que podia contar-te quando acontecesse,

Gosto de ti quando discutias com o pai,

Gosto de ti quando preferias o mano,

Gosto de ti quando me fazias querer sair de casa e mandar tudo para o Inferno (e foram tantas, tantas vezes…),

Gosto de ti quando implicavas com o meu cabelo,

Gosto de ti quando me proibias de comprar mais roupa preta,

Gosto de ti quando me dizias “Não precisas deles para nada!” (e me gritavas com esses olhos que não havia nada de errado em precisar de ti),

Gosto de ti quando íamos às compras e cedias aos meus caprichos,

Gosto de ti quando fomos ao casamento e me disseste que estava linda,

Gosto de ti quando disseste que ias pegar no carro e desaparecer (e me agarrei a ti e te supliquei que não fosses),

Gosto de ti quando me disseste que sempre quiseste uma menina,

Gosto de ti quando me ralhavas por não ter feito a cama,

Gosto de ti quando me gritavas,

Quando me beijavas,

Quando me ferias com palavras.

E tudo porque ainda me gritas, e ainda me beijas, e ainda me magoas com olhares. Tudo porque ainda me fazes querer, às vezes, não gostar de ti. Porque me tornaste incapaz de não te amar.

Mesmo quando te odeio.

Mesmo quando te mato.

E mesmo quando já não estás aqui.




sábado, 5 de julho de 2008

Entre nós, os anos


Foi quando o sol finalmente nasceu e a noite deixou de me pesar nos ombros que me decidi: Vou fugir.

Fechei as janelas, beijei os lençóis e murmurei um adeus ao agora. Quero o que ainda está por vir, tenho pressa no futuro. Quero ser atropelada pelo destino e tu esmagas-me com a tua vontade. Sufocas-me com o teu poder de decisão que é vazio. Com as tuas mãos com as quais julgas poder moldar quem és. Mas não podes… e o teu poder é indecisão.
Controlas a próxima dúvida que tens, não o caminho que tomas. Não és dono de ti, não és dono de nada. Não tens respostas. Nem para ti, nem para mim. E eu nunca te pergunto nada… e espero: O Tempo. Tenho que esperar pelo que não sei e confiar que o que não sei virá porque tem que vir. E mesmo quando bato a porta e saio por esse mundo afora, eu sei que não tinha escolha. Eu sei que é suposto que eu fuja, que eu corra, que não me esconda. E não me escondo… piso o chão com força e deixo marcas. Quero que saibas sempre em que direcção corro; que saibas sempre que tens que correr atrás de mim, correr para mim; sobre mim.


E Comigo.

Mesmo que me vejas sair e me esperes entre os lençóis que beijo de longe, aceleras o passo. Atravessas a mesma porta com os olhos, e esbarras com o mesmo estranho que eu esbarrei numa outra cidade, num outro país, numa outra vida. Corres comigo. Não sabes que sim…Mas corres sobre mim e comigo… E às vezes, à minha frente…E tomas o mesmo comboio que eu para parte nenhuma.
Porque o Tempo é nada, somos as mesmas pessoas para sempre. És ainda quem deixei naquela manhã, és ainda quem vive o meu destino, porque é o teu. E mesmo que nunca mais te veja, vejo-te todos os dias. Todos os instantes.

Sempre.


Talvez um dia regresse a casa, talvez o vento me traga de volta. Talvez a maré ou o serviço postal. Talvez volte numa carta. Ou, quem sabe, numa música que oiças, num fim de tarde quente, em que folheies uma antologia poética de alguém. Sabes que sou poesia…e sabes que volto. Porque eu não sou dona de mim, não sou dona de nada. Não tenho respostas. Nem para ti, nem para mim. Por isso volto.
E se tiver que ser contigo, serei contigo. Ainda que numa frase de Whitman, ainda que no despontar duma manhã.
E se tiveres que ser comigo, serás comigo. Ainda que a medo, ainda que demores a alcançar-me:


Serás tu
e eu
e os anos entre nós.




segunda-feira, 23 de junho de 2008

O mundo vezes mil


Tenho saudades tuas…por isso espero-te junto ao poço.

Não disseste nada antes de partir (nem uma palavra, uma carta ou um beijo deixado no ar), mas eu sei onde estás. Sei que não podes estar noutro sítio senão aqui.
Nos dias em que perdi a noção do mundo, disseste-me para ir ao abismo e voltar. Disseste-me que precisava de recuperar a minha perspectiva da vida. Das vidas. Das pessoas que rodeiam o meu fundo e me amam à distância. Das pessoas que esperam por mim, como eu espero por ti, aqui e agora.
Lembro-me de dizeres o quanto somos mais do que uma tarde de nervos; de como me gravaste nos braços, com as tuas unhas, a minha razão de ser. De como me despertaste da minha dormência com a palma da tua mão no meu rosto.

Com violência.

Com barulho.



Um abrir de olhos na escuridão

… o choque do acender da luz depois de uma noite mal dormida

… o protesto, o tapar do rosto com a almofada

… o afastar das cortinas, o primeiro abanão da manhã quando alguém nos lembra que o dia já vai a meio

… o chão de terra batida em que me reencontro quando volto a cair no autismo da minha consciência…


… tudo numa bofetada.



És quem aperta a minha mão com um olhar, quando sinto o mundo vezes
mil.

(E me confortas com o teu silêncio, porque o sentes da mesma forma.)


Nas noites em que corri descalça pelas ruas, foste os vidros que pisei; nas tardes em que me entreguei ao mar, foste o sal que me cortou os lábios; a pedra no meu sapato; o ferro em brasa na minha mão; o álcool na minha boca; a droga nas minhas veias.
És as minhas sensações, os meus sentidos. És quem me prende com palavras e me beija com escuridão. Quem me manda para o abismo, e me ama porque volto.

(E eu volto sempre.)


Por tudo isto, tenho saudades de ti. Sento-me aqui e espero que voltes para me apertares a mão: até doer. Até quebrar o osso. Até fundirmos os dedos e sermos

um.

Espero por ti para que me digas quem vês quando me debruço sobre o teu abismo. Se também te sentes mais vivo quando me pisas na rua, quando te corto os lábios com secura ou te acendo a luz.
Preciso que te debruces sobre mim, e me digas que ainda sou digna de ti, quando te olho do fundo do meu poço.

Diz-me. Olha-me. Vive-me.

E volta.




sexta-feira, 13 de junho de 2008



Quero apenas olhar-vos nos olhos e gritar.
Porque quando grito, sou mais eu.



quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sono azul


Hoje decidi tirar uma tarde para pensar e concluir. Deitei-me numa praça qualquer e deixei-me inundar com correrias de crianças e bater de asas dos pombos que me pousavam nos pés.

Lembro-me de dizer baixinho o teu nome e amaldiçoar os dias em que foste um deus. Já não tenho fé, sabes?

Tenho factos.

Tenho atitudes.

Tenho silêncios.

Tenho ausências.

Tenho monossílabos.

Tenho saudades.

Tenho palavras engasgadas que preciso tossir.

Tenho desejos impossíveis que preciso velar antes de os cobrir com barro.

Tenho toques.

Tenho recordações sensitivas.

Tenho sorrisos gravados por detrás dos meus olhos que se enchem de amor sufocado.

Tenho respirações ofegantes em noites amenas.

Mas já não tenho fé…

Não tenho um deus…

Tenho um pedestal vazio e um altar desmaiado sem promessas.



«Velas ardidas. Ódios pungentes.»



Fiquei assim, estendida no quente do chão sujo. Foram horas de nuvens e asas e estrelas apagadas e sóis renascidos das cinzas do dia que se finda. Fiquei assim, abandonada ao céu e a ideias que me ecoam na mente, mas não entram no meu espírito. Como contradizer o louco dentro de nós? Como dizer-lhe «basta!» ou «acorda!» quando queremos sempre mais deste sono que nos mata? Desta morte adocicada, feita de esponja, que nos seduz para fecharmos os olhos e sustermos a respiração que nos torce por dentro?

Fiquei assim, entregue aos olhares dos estranhos perplexos que me perpassam ainda. Mesmo agora, que me vim embora, continuo ali estendida, continuam a contornar a lembrança que imprimi no chão com as minhas unhas…


«…que cravei na ideia que tinha de ti.»



Fiquei assim, uma tarde inteira. Mortiça, inerte, apática. Estiraçada contra o mundo até me doer no corpo a indolência do existir ali e agora. Bocejei o começar da noite como quem saúda o fim dos tempos: dos teus tempos; da tua Era. Fugiu-me uma lágrima de ócio que abençoa o meu ateísmo: não acredito em nada.

Não acredito no que sinto,

no que dizem,

no que abraço

ou beijo com a alma.

Não acredito nas memórias que tenho,

nas pessoas que me estão destinadas

ou no que vejo com os meus próprio olhos.

É nada.

É vazio.

És tu ainda em toda a parte.


Depois de horas de céu, encafuo as conclusões no peito e levanto-me devagar com o morrer do dia. Não espero pelo sol, não festejo começos: celebro fins e enterros e tudo o que não seja um ciclo. Amaldiçoo reinícios. Cuspo na esperança porque o nascer do dia é nada, é vazio, és tu ainda…



«… dentro da minha cabeça. Em toda a parte.»


Pesam-me as pálpebras de sono azul…Levanto-me devagar e caminho, de olhos fechados, de olhos cheios do céu que não rasgaste com um raio de divindade, para a minha sepultura.

Ergo a minha conclusão com os dois braços e corro na rua enquanto a grito aos que não me ouvem.


«Não há nada aqui para mim e, por isso, é hora.»




terça-feira, 27 de maio de 2008

O nada que sou

Hoje acordei com uma saudade do que não sou. Doem-me na boca as palavras que não digo; ardem-me nos dedos as mãos que não toco; estalam-me na mente os sonhos que não tenho.

Acordei assim, a ressacar por algo mais que tenho de menos. A fome que me dissipa por não trincar o insulto; a sede, que não mato, de futuros ao meu alcance; a ânsia de abraços de fantasmas que não ignoro…


“… que oiço suspirarem o meu nome, quando me viram a pele do avesso e me atravessam com espadas de ar.”


Fogem dos meus olhos as metas que não corto, que não tento cortar. Bebo-as com os meus lábios e no travo a sal reconheço a vitória que podia ser … se ao menos eu dissesse as palavras minhas, enquanto aperto as mãos de um estranho com os dedos meus, no momento em que sonho matar a fome que não é a tua, e bebo do meu próprio abraço o futuro que ainda não é de ninguém… se ao menos ousasse gritar por cima da voz dos que me suspiram de parte nenhuma.


“Quanto de mim sou eu e quanto de mim são outros?”


Explodem-me nos olhos alegrias que não reconheço. Encrostam-se-me no peito cânticos longínquos de absurdos e utopias de outro que não eu.
Estes dias são vossos, levem-nos convosco. Estas tristezas são vossas, carreguem-nas nos ombros. Eu não sou minha e não me quero, sigo-vos.


“Levem-me de mim.”


Que fique aqui, nesta manhã, apenas quem eu sei que posso ser. Apenas as memórias que posso construir num futuro que alcanço com um golpe de asa.

Se não tenho palavras, que fique o silêncio, porque também esse é o meu. Se não tenho sonhos, então que durma para sempre na penumbra da ausência… porque também no nada há uma poesia dos sentidos.


“Cubro-me com um lençol que não acaba.

Perco-me no quente de uma manhã mal dormida.

Fecho os olhos e aguardo-me.”


Adormeço e sinto-me chegar, devagarinho, com o amanhã…