sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
Carta queimada
Escrevo-te uma última carta apenas para te dizer que, finalmente, consegui. Passados tantos anos, consegui dançar no passado e caminhar de volta ao dia de hoje sem lágrimas, sem soluços amarrados ao fim súbito que engoli sem mastigar. E que nunca digeri. Que me trouxe de arrastão à náusea que foi o meu existir de ontem.
Escrevo-te para que saibas que quando me sento nos degraus, na entrada da tua antiga casa, ainda sinto tremores, ainda me foge o sangue das mãos. Dobro os joelhos e cozo-os ao peito; fecho os olhos com força e colo os lábios à cicatriz que me ofereceste com tanto amor.
«Naquela tarde, em que corria atrás de ti, a favor do vento, e fugia do louco que nos gritava delírios do fundo da rua, caí ao comprido no alcatrão.
Uma queda morna e vermelha, que ardia e contia um choro de menina.»
Eis o que és, para mim, agora: memória aveludada de feridas que fecharam; eis o que sou, para ti, agora: prova do teu existir apressado.
Podia dizer-te como o vento do fim dos dias tinha sempre um sabor diferente quando esperava por ti, naquele passeio. Mas não te escrevo para nada disto. Não te vou pintar com poesias como fui contigo sem ti, durante todo este tempo em que na verdade não fui. Não fui de todo.
Escrevo-te apenas para te dizer que os anos passaram devagar, quase parados, mas que as minhas pernas cresceram e nas minhas mãos já não existem dedos pequeninos, por onde a prudência teimava escorregar, em tempos que já não vingam. Os meus soluços espaçaram e desprendi o choro.
Sentada, enrolada na saudade, vejo-te sorrir-me do outro lado da estrada onde te esperei, um dia, para sempre. Um sorriso de esponja, que impede o eco dos lamentos que te atiro na distância de se partirem em mil pedaços de vazio. Consigo gostar de ti, sangrar por ti, odiar-te e perdoar-te, tudo num intervalo de suspiro, com uma estrada entre nós. Quando te vejo esvanecer na transparência do teu não estar aqui, grito-te que padeço de uma doença rara que me impede de morrer contigo, mas que me força a viver por ti.
Sorrio no teu último voltar de costas, porque agora já não te amo, nem te odeio, nem tenho o que te perdoar. Sorrio sozinha, sorrio por mim, orgulhosa por ter aprendido, apenas e simplesmente, a gostar de ti assim:
sem lágrimas,
sem perguntas
e no adeus.
Risco um fósforo e queimo a carta.
sábado, 27 de dezembro de 2008
sábado, 20 de dezembro de 2008
Dessine-moi un mouton!
"Para mim, esta é a mais bela e mais triste paisagem do mundo. [...] Foi aqui que o principezinho fez a sua aparição na Terra e, depois, desapareceu. Fixem bem esta paisagem para poderem reconhecer se um dia fizerem uma viagem a África e forem ao deserto. Se passarem por este sítio, suplico-vos: não tenham pressa, fiquem um bocadinho à espera mesmo por baixo da estrela! Se vier um menino ter convosco, um menino que se está sempre a rir, com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é. E então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou..."
-O Principezinho-Antoine de Saint-Exupéry
domingo, 14 de dezembro de 2008
A segunda à direita e sempre em frente, até de manhã
"O número vinte e sete era apenas a uns metros de distância, mas caíra um pouco de
neve e os Darling escolhiam o caminho cautelosamente para não sujarem os sapatos. Eram as únicas pessoas na rua e todas as estrelas os observavam. As estrelas são belas, mas não podem tomar parte activa em nada, têm de ficar ali para sempre, a olhar. É um castigo que lhes foi imposto por qualquer coisa que fizeram há já tanto tempo que nenhuma hoje se lembra do que foi. As mais velhas ficaram com olhos de vidro e raramente falam (o piscar é a linguagem das estrelas), mas as pequeninas só pensam. Não são muito amigas de Peter, que tem a mania maldosa de se esgueirar por trás delas e querer apagá-las, mas gostam tanto de brincar que estavam do lado dele naquela noite e desejosas de tirar os adultos do caminho. Por isso, mal se fechou a porta do vinte e sete, depois de o senhor e a senhora Darling entrarem, ouve rebuliço no céu, e a mais pequenina de todas as estrelas da Via Láctea gritou: - Agora, Peter!"
* * *
Tantas, tantas saudades daqueles tempos...
Um peito que canta o fado tem sempre dois corações

não ia ser tão difícil
revelar-te o meu querer...
a timidez ata-me a pedras
e afunda-me no rio
quanto mais o amor medra
mais se afoga o desvario...
e retrai-se o atrevimento
a pequenas bolhas de ar
e o querer deste meu corpo
vai sempre parar ao mar..."
-Não sei falar de amor-
Deolinda
***
Um album que me ensinou que Lisboa não é a cidade perfeita, mas Mal por mal, mais vale mandar todos Fon-fon-fon, porque isto Contado ninguém acredita.
Porque na casa ao lado, há sempre uma canção que nos espera.
