sexta-feira, 13 de junho de 2008



Quero apenas olhar-vos nos olhos e gritar.
Porque quando grito, sou mais eu.



quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sono azul


Hoje decidi tirar uma tarde para pensar e concluir. Deitei-me numa praça qualquer e deixei-me inundar com correrias de crianças e bater de asas dos pombos que me pousavam nos pés.

Lembro-me de dizer baixinho o teu nome e amaldiçoar os dias em que foste um deus. Já não tenho fé, sabes?

Tenho factos.

Tenho atitudes.

Tenho silêncios.

Tenho ausências.

Tenho monossílabos.

Tenho saudades.

Tenho palavras engasgadas que preciso tossir.

Tenho desejos impossíveis que preciso velar antes de os cobrir com barro.

Tenho toques.

Tenho recordações sensitivas.

Tenho sorrisos gravados por detrás dos meus olhos que se enchem de amor sufocado.

Tenho respirações ofegantes em noites amenas.

Mas já não tenho fé…

Não tenho um deus…

Tenho um pedestal vazio e um altar desmaiado sem promessas.



«Velas ardidas. Ódios pungentes.»



Fiquei assim, estendida no quente do chão sujo. Foram horas de nuvens e asas e estrelas apagadas e sóis renascidos das cinzas do dia que se finda. Fiquei assim, abandonada ao céu e a ideias que me ecoam na mente, mas não entram no meu espírito. Como contradizer o louco dentro de nós? Como dizer-lhe «basta!» ou «acorda!» quando queremos sempre mais deste sono que nos mata? Desta morte adocicada, feita de esponja, que nos seduz para fecharmos os olhos e sustermos a respiração que nos torce por dentro?

Fiquei assim, entregue aos olhares dos estranhos perplexos que me perpassam ainda. Mesmo agora, que me vim embora, continuo ali estendida, continuam a contornar a lembrança que imprimi no chão com as minhas unhas…


«…que cravei na ideia que tinha de ti.»



Fiquei assim, uma tarde inteira. Mortiça, inerte, apática. Estiraçada contra o mundo até me doer no corpo a indolência do existir ali e agora. Bocejei o começar da noite como quem saúda o fim dos tempos: dos teus tempos; da tua Era. Fugiu-me uma lágrima de ócio que abençoa o meu ateísmo: não acredito em nada.

Não acredito no que sinto,

no que dizem,

no que abraço

ou beijo com a alma.

Não acredito nas memórias que tenho,

nas pessoas que me estão destinadas

ou no que vejo com os meus próprio olhos.

É nada.

É vazio.

És tu ainda em toda a parte.


Depois de horas de céu, encafuo as conclusões no peito e levanto-me devagar com o morrer do dia. Não espero pelo sol, não festejo começos: celebro fins e enterros e tudo o que não seja um ciclo. Amaldiçoo reinícios. Cuspo na esperança porque o nascer do dia é nada, é vazio, és tu ainda…



«… dentro da minha cabeça. Em toda a parte.»


Pesam-me as pálpebras de sono azul…Levanto-me devagar e caminho, de olhos fechados, de olhos cheios do céu que não rasgaste com um raio de divindade, para a minha sepultura.

Ergo a minha conclusão com os dois braços e corro na rua enquanto a grito aos que não me ouvem.


«Não há nada aqui para mim e, por isso, é hora.»




terça-feira, 27 de maio de 2008

O nada que sou

Hoje acordei com uma saudade do que não sou. Doem-me na boca as palavras que não digo; ardem-me nos dedos as mãos que não toco; estalam-me na mente os sonhos que não tenho.

Acordei assim, a ressacar por algo mais que tenho de menos. A fome que me dissipa por não trincar o insulto; a sede, que não mato, de futuros ao meu alcance; a ânsia de abraços de fantasmas que não ignoro…


“… que oiço suspirarem o meu nome, quando me viram a pele do avesso e me atravessam com espadas de ar.”


Fogem dos meus olhos as metas que não corto, que não tento cortar. Bebo-as com os meus lábios e no travo a sal reconheço a vitória que podia ser … se ao menos eu dissesse as palavras minhas, enquanto aperto as mãos de um estranho com os dedos meus, no momento em que sonho matar a fome que não é a tua, e bebo do meu próprio abraço o futuro que ainda não é de ninguém… se ao menos ousasse gritar por cima da voz dos que me suspiram de parte nenhuma.


“Quanto de mim sou eu e quanto de mim são outros?”


Explodem-me nos olhos alegrias que não reconheço. Encrostam-se-me no peito cânticos longínquos de absurdos e utopias de outro que não eu.
Estes dias são vossos, levem-nos convosco. Estas tristezas são vossas, carreguem-nas nos ombros. Eu não sou minha e não me quero, sigo-vos.


“Levem-me de mim.”


Que fique aqui, nesta manhã, apenas quem eu sei que posso ser. Apenas as memórias que posso construir num futuro que alcanço com um golpe de asa.

Se não tenho palavras, que fique o silêncio, porque também esse é o meu. Se não tenho sonhos, então que durma para sempre na penumbra da ausência… porque também no nada há uma poesia dos sentidos.


“Cubro-me com um lençol que não acaba.

Perco-me no quente de uma manhã mal dormida.

Fecho os olhos e aguardo-me.”


Adormeço e sinto-me chegar, devagarinho, com o amanhã…




domingo, 25 de maio de 2008




Mais um ano de estadia entre o que fui e o que quero ser.
Mais um ano cheio de nadas, de falsas certezas, de pequenas alegrias que nascem de parte nenhuma e que nunca chegam ao fim do dia.


"Sorrisos efémeros, tristezas contidas."


Este ano não sopro a vela, deixo-a consumir-se até ao fim do pavio.
Não peço desejos porque o futuro está nas minhas mãos. Não quero desejar coisas, quero quere-las.
Não corto o bolo, deixo-o apodrecer em cima da minha mesa. Quero vê-lo decompor-se, mudar-se-lhe as cores, antes de cortar a primeira fatia e oferece-la a alguém especial.


"Ainda por vir."


Este ano fico-me assim, calada no escuro, à luz de uma vela... mais um ano de coisas que já conheço, de coisas velhas, de trapos. De vultos e de semanas sem recordações.
Fico-me assim, na esperança de que o truque seja não morder a vela, de que o segredo seja não festejar o condenar dos tempos.
Fico-me, simplesmente, sem nada para dizer, sem frases bonitas ou textos marcantes. Não tenho palavras...



"Nem minhas, nem tuas."


Parabéns Ana...
...ou Isabel.


Já nem eu sei.







sexta-feira, 23 de maio de 2008

Nem poema, nem prosa, nem nada com sentido.


Hoje sinto
que estou a
bater,com
quantas
forças tenho,
à minha
porta,
implorando
que me
deixem sair.
Que me
deixem ser
com as
pessoas.
Que me
deixem ser
com vocês,
porque estou
cansada de ser
sozinha.
Grito
violências e
não tenho
resposta
.
Canto
ternuras,
mas o
silêncio
pesa-me
nos ombros.

O mundo
pegou nas
chaves da
minha casa e
fechou-se do
lado de fora.

Bateu com a
porta.
E não ficou à
escuta.
Foi-se embora
e não
olhou antes
de
desaparecer
na esquina.
Estou presa
e quero
sair.
Tirem-me
daqui.
Tira-me

daqui.
Consegues
ouvir-me?

Ainda estás
aí?

...

sábado, 17 de maio de 2008

Em bicos de pés

Hoje quis cair no chão.

Quis, deliberadamente, cair e esfolar o joelho; sentir-te latejar na superfície da minha pele.

Quis que o tempo parasse para que eu visse como curo.

Como consigo curar.

Como não sangro para sempre.

Como a dor se dissipa em directa proporção com que coagulo a ferida,

E te cicatrizo.



Hoje quis magoar-me.

Quis decidir que era tempo de doer e escolher de que altura mergulharia no cimento afiado.

Quis eu própria derramar o álcool sobre a carne só para que ardesse.

E sentir-me em chamas.

Quis o poder de poder escolher chorar quando doeu.

Quis limpar as lágrimas com a manga da blusa.

Quis soluçar-te.


“Chorar-te e gritar-te com punhos cerrados. Amar-te e trair-te, tudo no mesmo instante.”



Levantei-me.

Sacudi o pó, bati as mãos e vi-me de pé.

Pus um penso na ferida e não pensei mais que doía, mesmo quando te sentia morder ao de leve.

Não quis levantar-me, mas levantei-me.

Não quis curar-me, mas curei-me.

Não quis amar-te, mas amei-te.

Não quis esquecer-te, mas …




“…o rasgão na minha pele fechou-se. Sem pedir permissão. Sem perguntas. E agora, quando caminho, o meu chão não é cimento: é feito de penas que abraçam os meus pés e de plumas que me beijam os tornozelos magoados.

Rodopio nas palavras que me deixaste e ergo-as como um hino que canto a plenos pulmões. Rabisco na tua mão, com a minha, que não sou tua: sou de mim e dos que me querem. Beijo-te na testa que sou outra, com os teus silêncios de que fiz a musica que me embala, em noites compridas e sem sonhos. Sopro-te com os meus olhos a pessoa que quero ser e mordo-te, na despedida, com os lábios de ontem, para que te lembres de quem, um dia, pensei que eras.

Mas não foste nunca.

Em bicos de pés e quase num tropeço, espreito para lá de ti: sobre o teu ombro esquerdo, a tranquilidade; sobre o direito, o desconhecido. E enquanto tento recuperar o equilíbrio, avisto uma nesga de futuro que me faz confiar na queda.

De novo caio, mas sem vontade… e não me magoo. Porque agora o meu chão é feito de penas que me abraçam os pés… E de plumas que me beijam os tornozelos que magoaste… E de amores que esperam por mim em esquinas de ruas que existem na vida que se estende para lá de ti, e que eu espreitei, quando caí…”

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Maid of Athens, ere we part... Give, oh give me back my heart!





"Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses. You build up a whole armor, for years, so nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life... You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' or 'how very perceptive' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a body-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. Nothing should be able to do that. Especially not love. I hate love."



("Rose Walker" in The Sandman)