domingo, 25 de maio de 2008




Mais um ano de estadia entre o que fui e o que quero ser.
Mais um ano cheio de nadas, de falsas certezas, de pequenas alegrias que nascem de parte nenhuma e que nunca chegam ao fim do dia.


"Sorrisos efémeros, tristezas contidas."


Este ano não sopro a vela, deixo-a consumir-se até ao fim do pavio.
Não peço desejos porque o futuro está nas minhas mãos. Não quero desejar coisas, quero quere-las.
Não corto o bolo, deixo-o apodrecer em cima da minha mesa. Quero vê-lo decompor-se, mudar-se-lhe as cores, antes de cortar a primeira fatia e oferece-la a alguém especial.


"Ainda por vir."


Este ano fico-me assim, calada no escuro, à luz de uma vela... mais um ano de coisas que já conheço, de coisas velhas, de trapos. De vultos e de semanas sem recordações.
Fico-me assim, na esperança de que o truque seja não morder a vela, de que o segredo seja não festejar o condenar dos tempos.
Fico-me, simplesmente, sem nada para dizer, sem frases bonitas ou textos marcantes. Não tenho palavras...



"Nem minhas, nem tuas."


Parabéns Ana...
...ou Isabel.


Já nem eu sei.







sexta-feira, 23 de maio de 2008

Nem poema, nem prosa, nem nada com sentido.


Hoje sinto
que estou a
bater,com
quantas
forças tenho,
à minha
porta,
implorando
que me
deixem sair.
Que me
deixem ser
com as
pessoas.
Que me
deixem ser
com vocês,
porque estou
cansada de ser
sozinha.
Grito
violências e
não tenho
resposta
.
Canto
ternuras,
mas o
silêncio
pesa-me
nos ombros.

O mundo
pegou nas
chaves da
minha casa e
fechou-se do
lado de fora.

Bateu com a
porta.
E não ficou à
escuta.
Foi-se embora
e não
olhou antes
de
desaparecer
na esquina.
Estou presa
e quero
sair.
Tirem-me
daqui.
Tira-me

daqui.
Consegues
ouvir-me?

Ainda estás
aí?

...

sábado, 17 de maio de 2008

Em bicos de pés

Hoje quis cair no chão.

Quis, deliberadamente, cair e esfolar o joelho; sentir-te latejar na superfície da minha pele.

Quis que o tempo parasse para que eu visse como curo.

Como consigo curar.

Como não sangro para sempre.

Como a dor se dissipa em directa proporção com que coagulo a ferida,

E te cicatrizo.



Hoje quis magoar-me.

Quis decidir que era tempo de doer e escolher de que altura mergulharia no cimento afiado.

Quis eu própria derramar o álcool sobre a carne só para que ardesse.

E sentir-me em chamas.

Quis o poder de poder escolher chorar quando doeu.

Quis limpar as lágrimas com a manga da blusa.

Quis soluçar-te.


“Chorar-te e gritar-te com punhos cerrados. Amar-te e trair-te, tudo no mesmo instante.”



Levantei-me.

Sacudi o pó, bati as mãos e vi-me de pé.

Pus um penso na ferida e não pensei mais que doía, mesmo quando te sentia morder ao de leve.

Não quis levantar-me, mas levantei-me.

Não quis curar-me, mas curei-me.

Não quis amar-te, mas amei-te.

Não quis esquecer-te, mas …




“…o rasgão na minha pele fechou-se. Sem pedir permissão. Sem perguntas. E agora, quando caminho, o meu chão não é cimento: é feito de penas que abraçam os meus pés e de plumas que me beijam os tornozelos magoados.

Rodopio nas palavras que me deixaste e ergo-as como um hino que canto a plenos pulmões. Rabisco na tua mão, com a minha, que não sou tua: sou de mim e dos que me querem. Beijo-te na testa que sou outra, com os teus silêncios de que fiz a musica que me embala, em noites compridas e sem sonhos. Sopro-te com os meus olhos a pessoa que quero ser e mordo-te, na despedida, com os lábios de ontem, para que te lembres de quem, um dia, pensei que eras.

Mas não foste nunca.

Em bicos de pés e quase num tropeço, espreito para lá de ti: sobre o teu ombro esquerdo, a tranquilidade; sobre o direito, o desconhecido. E enquanto tento recuperar o equilíbrio, avisto uma nesga de futuro que me faz confiar na queda.

De novo caio, mas sem vontade… e não me magoo. Porque agora o meu chão é feito de penas que me abraçam os pés… E de plumas que me beijam os tornozelos que magoaste… E de amores que esperam por mim em esquinas de ruas que existem na vida que se estende para lá de ti, e que eu espreitei, quando caí…”

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Maid of Athens, ere we part... Give, oh give me back my heart!





"Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses. You build up a whole armor, for years, so nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life... You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' or 'how very perceptive' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a body-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. Nothing should be able to do that. Especially not love. I hate love."



("Rose Walker" in The Sandman)





sábado, 26 de abril de 2008

Não me vês, não me ouves

Pergunto-te:



Consegues ver-me?

Os meus olhos que te perseguem quando caminhas no lado errado da estrada;

Que percorrem a tua nuca e se prendem no sorriso que nunca esboças;

Que te murmuram o que os lábios calam, mesmo quando o ruído de fundo o esmagaria com banalidades de almas errantes.



«Condenadas ao quotidiano…»



Consegues senti-las?

As minhas mãos que se enlaçam nas tuas quando meia cidade nos separa;

Que contornam o teu rosto quando te espantas com o mundo;

Que ousam amar-te como as palavras não conseguem e te sussurram como os lábios selados desejam fazê-lo.



«O sublime de um toque demorado…»



Consegues ouvi-los?

Os meus lamentos que ecoam naquela avenida que esquecemos o nome;

Que batem às portas em busca do consolo de alguém que também ame um mero sonho;

Que te gritam baixinho e que, mesmo quando dormes um sono solto e leve, nunca te acordam.



«Murmúrios acutilantes sem destino…»



Sento-me aqui e penso no sentido de todas estas coisas. Calo-me. Para quê falar? Se tudo o que te consigo dizer é dialecto de parte nenhuma. Fecho os olhos. Para quê ver? Miscelânea de vultos tenebrosos que me cercam de todos os lados. Volto costas. Não quero ouvir. Porque o que tens para me dizer não responde às minhas perguntas.


Pára.

Pára de caminhar no lado errado da estrada.

Pára de não esboçar aquele sorriso.

Não te espantes com o mundo.

Não enlaces as minhas mãos de volta.

Lembra-te do nome daquela avenida.

Sê mero sonho de outra pessoa.

Dorme para sempre.

Não me vejas.

Não me oiças.

Não me ames.

E se um dia te voltar a perguntar,

Não me respondas.



_________________

Ao som dos meus conterrâneos Hands on Approach, Tão perto e tão longe.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Mil anos de Nada

No último olhar, naquele último adeus dito com a força de mil sóis que explodiam e faziam borbulhar as lágrimas no canto dos meus olhos, soube que era para sempre. Disseste-me para não olhar para trás quando largássemos as mãos e virássemos costas a nós mesmos (porque sabes que não existimos nunca um sem o outro, nunca completamente; eu fui eu contigo, e tu sem mim, não serias nunca), mas não o fiz. Tu sabias que não o faria.

Lembras-te de mim? Aquela que te implorou que agarrasses o momento com as duas mãos e mordesses o espanto. Quem te levantou do chão vezes sem conta quando o mundo girava anormalmente depressa e te fazia tropeçar nas dúvidas que te estalavam no cérebro. Aquela que soube quem tu eras no meio da multidão de rostos sem feições.

Aquela que ainda hoje se lembra de ti.

Lembro-me da manhã em que te vi sonhar com passagens bíblicas; de como aquelas lengalengas rodopiavam nos teus lábios que sopravam delírios dementes; de como te sentaste no meio da estrada e beijaste o asfalto quente com ternura de irmão; de como me sentei com um estranho perante os incrédulos e fechei os olhos: fui chão. A mim todos passos de uma humanidade que arrasta os pés!

Mas não fomos apenas feitos de momentos de poesia pois não? Fomos feitos de monotonia, rotina, tédios incertos. Fomos tardes sem nada para fazer. Fomos silêncios desconfortáveis em dias de estranha lucidez, em que desesperávamos por aquela gota de loucura que nos levava sempre para o lado de lá (o mundo dos loucos) e ressacávamos por teorias insanas sobre detalhes absurdos das vidas de pessoas que existiam apenas na nossa cabeça.

Lembro-me de atravessar paredes contigo. Lembro-me de quando saltamos para o abismo e acordamos de mãos dadas. Lembro-me de morrer e de nascer contigo, outra e outra vez.


«Outra e outra vez. Mil anos de ti.»


Mas quando, naquela madrugada, me levaste a molhar as mãos no mar e me olhaste com os olhos vazios, soube que era para sempre. Porque dentro desse peito já não eras tu, pois não? Não, bem sei que não eras tu. Quando me disseste para não olhar para trás e seguisse o meu caminho, foi o último instante em que exististe. Quando largámos as mãos já não eram as nossas mãos, pois não? Porque as minhas mãos são minhas quando as tuas mãos são minhas, e agora já nada de ti é meu. Mas mesmo assim olhei uma última vez, um último adeus: não a ti, mas a mim própria.

Porque já nada de mim é teu, tornas-te do Mundo.

Porque já nada de ti é meu, sou de Ninguém.

Esgoto-me. Acabo. Chego ao fim.

E enfrento mil anos de nada.



quarta-feira, 2 de abril de 2008

Grito da alma


Ontem nada fui, porque nada senti,

Em nada me tornei, e por fim...nada vi!

Romeiro do meu suplicio me converti,

Porque não fui, não observei...não existi!

 

Sorrir; chorar; É gritar com a alma,

É Ser o Homem de hoje e de amanhã,

É palmilhar o canto do existir

Numa aliteração da rotina vã.

 

Quero sorrir; chorar; quero gritar;

Enfim...quero voar; quero amar; quero ser LIVRE!

Ter-te comigo...como por nunca tive!

 

Hoje vivo porque chorei, hoje estou aqui,

Porque sorri, mesmo pequeno por ti rogo,

Viver é bom, por isso, chora e ri!