terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Afirmação

Hoje vou mais além, trazendo comigo um pedaço de céu dentro do bolso. E agora, depois de tanto tempo sem perceber, sei que o frasco existe apenas para que eu pudesse trazer sempre comigo um pouco deste mar.

Quero que a areia se misture com as ondas que se formam no meu cabelo e que o sol queime a minha pele até ela não ter mais razão de existir. Quero que a noite embale, pela primeira vez, o meu corpo quente e adormecido, e que a brisa me sussurre ao ouvido, histórias lindas....inimagináveis. Eu quero tudo a que tenho direito.

Hoje levantei voo com o vento e descobri que as nuvens têm sabor. Hoje consigo sentir, sem medo, a vida na minha boca.

Desprezo, sem pena ou vergonha, todos aqueles que não têm coragem de sorrir. Que nunca voam com o vento, carregam consigo o céu ou sentem a vida entre os lábios. Coragem não é não ter medo de fazer algo, mas sim, ter medo de fazer algo e faze-lo na mesma. Eu hoje sou corajosa.

Para quê então ficar à espera? Tenta, luta, sonha e ousa! Ou conforma-te com a tua pequenez. Sem lágrimas, sem lamentações.

Hoje, destemida, vou mais longe, deixando para trás um mundo que não compreendo, desejo ou aceito. Hoje, trazendo comigo a memória daquela praia, faço questão de não ouvir todos aqueles que me condenam por ser livre.


- 26 De Agosto de 2003

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Ashes to ashes, dust to dust

Diz-me, velho que choras, porque choras?

Por vidas que podiam ter sido a tua, se tivesses ousado?

Por destinos exóticos que podiam ser o teu, se tivesses partido?

Por dias que podias ter agarrado, mas desperdiçaste?

Diz-me, alma penada, por quem choras?

Por amores que podiam ser os teus, se tivesses amado?

Por estranhos que podiam ser teus filhos, se não os abandonasses?

Por fantasmas que não te assombrariam, se não tivesses nascido?


Porque, não partido, ousaste seguir um destino único que é só teu, sossega o coração;

Porque em todos os dias que não agarraste, amaste os filhos que traíste, enxuga as lágrimas;

E porque se nunca existisses partindo, não amando, não traindo, serias tu mesmo o espectro de um sonâmbulo, vangloria-te.

Viveste.
Sentiste.
Estiveste aqui.

E por um curto espaço de tempo, o mundo foi teu.
Por isso não chores, responsabiliza-te;
E respira fundo:

É apenas tempo de voltares a ser do mundo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Vou tirar uns dias. Pôr algumas ideias em ordem... Ando esquisita e tenho de me organizar, "encaixotar" e pôr de lado certas coisas.



sábado, 26 de janeiro de 2008

Because some days I just don't know...



...don't know who I am, who to be; don't know what I need or who to need; don't know what to say, how to speak. Because some days I'm just...
Voiceless.




quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Sem título

Coragem?...Covardia?...

Desespero.

É olhar para baixo de um décimo andar.

É ver um sinal de trânsito sempre aberto.

É sentir o chão que constantemente dança.

É silenciosamente gritar no íntimo dos sentidos.

«A efervescência da vida…»

É passar 96 horas em branco.

É não comer para que o estômago se contorça.

É mastigar a língua para que não haja verdade.

É não chorar para que os olhos não ardam.

«Há que se assistir à própria Morte. Ser-se lúcido e consciente.»

É uma tontura ao levantar de um banco de jardim.

É perseguir pombos numa praça.

É queimar os lábios num filtro de cigarro.

É dormir de olhos abertos.

«O sono que surge de parte incerta…”do nada, nada pode nascer”…»

É uma corda que não quebra.

É um mocho podre de um avô morto.

É saber que as estrelas morrem.

É uma madrugada perfeita em que fechamos os olhos.

«E finalmente adormecemos.»

Coragem?...Covardia?

Coragem.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Ainda me lembro quando passávamos horas a fio, sentadas no cimento frio, e olhávamos os velhos que se arrastavam pelo jardim. Não trocávamos palavras. Nunca precisámos de palavras, tu e eu.

Lembras-te daquele dia em que choveram flores? Amontoavam-se no chão e formavam um círculo à nossa volta, enquanto eu olhava, incrédula, o músico que chorava sozinho. Não me lembro de choverem flores: lembro-me de ti e do músico, mas não vi flores. E nunca via flores, por isso tu sempre as viste por mim e me contaste como eram pequeninas e impregnavam os meus cabelos de um aroma que nunca mais voltaria a existir.

Nas tardes em que te vi, ao longe, caminhares apressada na minha direcção, soube que podia amar-te sem querer tocar o teu corpo. Nunca quis beijar a tua boca, mas fiz amor com a tua alma, com a tua mente, com as tuas lembranças. Nunca precisámos de palavras, tu e eu. Nunca precisámos de nada a não ser de todos aqueles estranhos com quem nos cruzávamos no meio do verde, e que nos contavam histórias com os seus olhos tristes, com as suas rugas de expressão e com os seus guinchos e risos de juventude efémera. Chorei com os seus olhos, sorri com os seus lábios e amei-te com os seus corações. Fomos aquelas pessoas, nos fins de dia gelados em que apertávamos as mãos e sonhávamos com vidas que não eram as nossas. Até a tua vida foi minha: quando te via deslizar pelos corredores da escola, imaginava como serias sentada no fundo da sala, de olhos atentos e coração apertado, enquanto o professor recitava os poemas que faziam de ti aquela pessoa que sentia o mundo com a ponta da língua, tomando-lhe o gosto, temperando-o com lágrimas.

Agora que volto ao nosso sitio, depois de anos de normalidade, pergunto-me se te sentarias comigo se estivesses aqui. Se te visse ao longe, apressada, ainda deixarias que te amasse? Serias a mesma? És a mesma, agora, nesse lugar onde estás?

Sento-me e olho em volta. Risos de crianças, pés arrastados dos velhos e estranhos que me olham de soslaio e aceleram o passo – nada mudou. Ainda são os mesmos, ainda que outros. Penso em ti, em mim e em mim sem ti. Sou a mesma e não vejo flores. Porque te menti naquele dia, odeio-me: também eu senti o perfume que não existiu nunca mais. Odeio-me porque sei que se te tivesse dito que era por ti que os meus sentidos absorviam o mundo, talvez tivesses ficado. Talvez te tivesses demorado um pouco mais, por mim. Ou talvez, pura e simplesmente, me tivesses deixado as flores.

21-01-08

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Suicídio

Agora que a luz se apaga, fecho, determinada, os olhos.
Agora que o fim chega, já não há mais lugar para a esperança.
O cheiro do mundo permanece, intenso, entre os meus sonhos…
Eu protesto, já sem vida, contra o ácido da lembrança.


«Sempre pensei que iria ser diferente …O sofrimento não fazia parte dos meus planos.»


Eu, que banhada, um dia, em puro ouro de ilusões,
Escondo, agora, a cara entre vultos escuros e turbulentos;
Apago da memória todos os olhares e recordações…
E caminho entre sombras afiadas e rostos desatentos.


«Uma luz no fundo do túnel? …Nem sempre.»


Fraca, por não tentar, deixo-me cair na terra espessa.
Ofuscada, de olhos abertos, por brilhos de origem perigosa.
O abismo, ao longe, aproxima-se mais depressa…
Uma desilusão, uma queda, uma morte vertiginosa.


«Não estou a ser sincera…na verdade nunca pensei que iria ser feliz…»



O silêncio que ensurdecia agora é-me necessário.
A luz que cegava traz-me o espírito absorto.
Aqui, debaixo da terra, tudo é mais simples e mais claro.
Hoje, debaixo da terra, a vida é melhor por se estar morto…


«…de livre vontade. Sempre soube que acabaria assim.»